“Caminhando a gente se entende” tem lançamento com auditório lotado no Gustavo Capanema

 

 

Foto de Daivson Santos

A noite do dia 23 de janeiro de 2012 foi mais que especial para aqueles que abraçam a causa da liberdade religiosa. O Auditório Gustavo Capanema, no Centro do Rio, estava lotado quando uma citação de Nelson Mandela deu início à comemoração pelo Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, oficializado pela Lei 11.635/07. E para celebrar a data, a CCIR lançou o livro “Caminhando a gente se entende”, um registro histórico sobre as quatro Caminhadas realizadas na Praia de Copacabana. Após a execução do Hino Nacional, a atriz e cantora Soraya Ravenle, leu um poema de Martin Niemöller. “Todos nós, artistas ou não, devemos colaborar e discutir sobre essa causa. Estou maravilhada em ver a efetividade desse trabalho em torno de um objetivo comum, e que beneficia o cotidiano das pessoas”, disse a artista, que é judia.

A violinista Marta Muniz, que pertence à religião bahá’í, e a poetisa Lia Vieira, que é espírita, se apresentaram e em seguida, foi exibido um vídeo de trinta minutos sobre a Quarta Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa. Em setembro de 2011, mais de 180 mil pessoas estiveram na Praia de Copacabana. O DVD, contendo imagens e depoimentos de diversos religiosos, também foi lançado oficialmente durante o evento e emocionou os presentes.

Após a exibição do filme, representantes da CCIR e demais autoridades foram convidados pelo interlocutor da Comissão, babalawo Ivanir dos Santos, a comporem a mesa de debates. “Gostaria que cada um de vocês se sentisse construtor da Caminhada. É impossível colocarmos todos no livro, mas reconhecemos todas as pessoas e órgãos que sempre apoiaram a causa. Nesses tempos de mudanças radicais no destino da humanidade, onde se busca a paz como um modo fundamental das relações humanas, não podemos sucumbir à intolerância religiosa”, disse o babalawo antes de passar a palavra aos componentes da mesa.

O representante dos fotógrafos, Vantoen Pereira Junior, foi o primeiro a falar. “Acolhimento, integração e respeito são três palavras que aprendi desde pequeno com minha avó, muito religiosa. A vida me levou a diversos terreiros, casamentos judaicos, entre tantas experiências, das quais pude lembrar a infância que tive”. O muçulmano Sami Isbelle  chamou atenção para o momento atual. “É lamentável estarmos no século XXI e ainda convivermos com discriminação, racismo e coisas do gênero. A missão da Comissão é frear as atitude desses pseudoreligiosos”. Hélio Koifman representou os judeus e falou de questões históricas como o Holocausto. “A Confederação Israelita do Brasil e a Sociedade Israelita da Bahia realizam um evento em Salvador no próximo dia 30 para marcar o Dia em Memória das Vítimas do Holocausto. Será feita uma homenagem especial aos negros que foram vítimas do regime nazista, através da exibição de um vídeo produzido especialmente para a ocasião”.

A fundadora da Comissão, Fátima Damas, focou no trabalho realizado. “A ideia foi bem aceita pelos religiosos e pela sociedade. Conquistar a credibilidade dessas pessoas é difícil. Mas esse livro é a coroação do esforço de muitos. Já estamos nos preparando para a Quinta Caminhada”. O superintendente da secretaria de Direitos Humanos, Claudio Nascimento, falou do papel do Estado com a sociedade. “Temos de admitir que o compromisso do Estado com seu povo ainda é pouco ativo. Valorizar a religiosidade, enquanto ser humano, não é negar a diferença da fé do outro. Assumo, perante a todos, o compromisso de produzir pelo menos mais cinco mil cópias desse livro”. Mãe Meninazinha D’Oxum prega a união. “Não precisamos lotar um Maracanã para nos unirmos. O que vejo aqui é a união de diversas pessoas, de diferentes religiões. E nos entendemos porque todos nós temos fé”.

A chefe da Polícia Civil, delegada Marta Rocha, lembrou de sua infância e da pluralidade de crenças que pôde conhecer e falou sobre seus planos quanto à parceria da Polícia Civil e a CCIR. “Assim que eu terminar de ler o livro, doarei para o Museu da Polícia Civil. As próximas turmas a serem formadas terão um tempo para conversar com membros da Comissão. Se o Estado é laico, nós devemos estar irmanados”. O reverendo Marco Amaral falou da atual situação dos evangélicos. “Me sinto envergonhado porque não vejo os evangélicos aqui nesse momento que pedimos tolerância e respeito, valores básicos da existência humana. Mas tenho esperança de que veremos a glória de Deus na Terra. Um dia, nós evangélicos olharemos para outras religiões com o mesmo respeito que gostaríamos de ter”.

A ministra da Cultura, Ana De Hollanda, foi representada por Xico Chaves. “Passei minha infância no interior de Minas Gerais e sempre convivi com as diferenças sincréticas. Os projetos voltados para a diversidade cultural, iniciados pelo ex-ministro Gilberto Gil, vem tendo continuidade com a ministra Ana”. Padre Gegê trouxe o apoio do arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani Tempesta e faou do processo de reinvenção que estamos passando. “Na África, o homem se pôs de pé, começou a caminhar e a reiventar-se. Hoje, cada religião que se une, reinventa-se e cria um novo Brasil”. Edson Cardoso, representante da Seppir, ficou impressionado com a força do público presente. “É de uma grandeza enorme o surgimento de um movimento como esse, ainda mais no Rio de Janeiro, a referência do Brasil para o mundo”. Por fim, o representante da Fundação Palmares, Elói Ferreira, falou da relação entre política e religião. “Juntos ao Estado e à Polícia, temos o compromisso de erradicar as desigualdades. Combater a intolerância e o preconceito é uma tarefa de todos”.

O babalawo Ivanir dos Santos finalizou o debate da mesa e entregou a cada um dos componentes uma cópia do livro “Caminhando a gente se entende”. A companhia de dança Muanza Mesú encerrou a cerimônia, representando diversos orixás. A caracterização do grupo impressionou e emocionou os presentes. Ao fim, foi servido um coquetel em comemoração ao sucesso do lançamento.

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