CCIR participa de debate na “Primavera dos Museus”

A Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR) participou, na tarde do dia 23 de setembro, da mesa “Caminhando a Gente se Entende – A Favor da Liberdade Religiosa”, proposta pelo Museu da Republica, que expôs, por três meses, mostra de imagens de cinco Caminhadas em Defesa da Liberdade Religiosa. O encontro aconteceu no Espaço Multimídia da realizadora e contou com seis representações no debate. A reunião mostrou a importância da pluralidade para a democracia brasileira e impressionou espectadores.

Mediadas por Mário Chagas, as falas reproduziram as construções da CCIR, que organiza as caminhadas e tem reconhecidos trabalhos em prol das liberdades de expressões. A diretora do Museu da República, Magaly Cabral, agradeceu ao grupo pela exposição e pela formação da mesa. “Foi um enorme prazer receber esta exposição aqui, pois somos contra todos os tipos de preconceitos. Este encontro de hoje, também, é para que mais pessoas possam ver a possibilidade de convivência entre os diferentes. Muito obrigado à Comissão”, disse.

Após algumas considerações, Chagas passou a palavra para o representante da Arquidiocese do Rio de Janeiro, diácono Nelson Águia. “Nos dias atuais, há uma busca pelos direitos individuais, e isso é fator de atritos. Como garantir a liberdade diante de tanta diversidade e fundamentalismo?”, questionou o representante católico, que enfatizou a essencialidade do diálogo. “O fundamentalismo acentua o particularismo, cultua uma tradição, que não é ruim. Tradição nos traz erros e acertos. Isso deve ser vivido numa cultura de diálogos, que nega a superioridade absoluta. Numa cultura democrática, o homem deve ser respeitado. Os direitos são proclamados por homens de boa vontade. As religiões são forçadas a aceitar esses valores, e o diálogo entre os diferentes credos é fundamental no estado democrático”, completou Águia, que também ponderou a preservação das liberdades de ensino, educação, escolha, manifestação de cultos por seu segmento.

Presbiteriano, Marcos Amaral ratificou que não faz parte de pessoas intolerantes e explicou princípios do Cristianismo. “Ele (Cristianismo) defende, em sua essência, a pluralidade religiosa; deixa claro que política e fé não dão certo. Separados, podem ser bons, mas, ao se encontrarem, causaram barbáries incalculáveis. O Cristianismo não deve aceitar sentar à mesa do estado, pois todo estado é corrupto”. Afirmou o pastor, completando com exemplo do presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, Marco Feliciano. “Não concordo com a homossexualidade, mas não sou a favor do Marcos Feliciano à frente da Comissão de Direitos Humanos, pois ela defende as minorias”, explicou.

Em outra fala, Amaral contou que sofre por posar ao lado do interlocutor da CCIR, babalawo Ivanir dos Santos. “Me atacam quando saímos em alguma foto juntos. No entanto, a religião é confessional e, por isso, não pode estar apegada ao estado. Pastor não pode ter avião, helicóptero. A religião é segmentada Não queremos aceitação confessional, mas o convívio confessional”.

Projeto de poder

Ainda em suas palavras, reverendo Marcos Amaral alertou que “os evangélicos querem transformar a sociedade através do poder. Se isso ocorrer no Brasil, corremos riscos. Cuidado!”.

Representando o Candomblé, Ivanir dos Santos falou sobre sua fé e um pouco sobre a cultura Yorubá. Em seu discurso, dos Santos voltou a defender o direito dos ateus e pediu que ninguém tivesse preconceito contra pessoas evangélicas. “Sábado fiquei impressionado porque estava em casa e, sem querer, acabei passando os canais e vi o Silas Malafaia vendendo seguro. Mas as pessoas são livres, e nós que defendemos a liberdade não podemos destilar preconceitos contra os evangélicos. Há uma minoria perigosa, que realmente tem projeto de poder. Mas a Comissão tem trabalhado justamente pelos direitos de todos, porque o Criador, como sempre falo, nos deu o livre arbítrio, inclusive o de não acreditar. E é por isso que tenho pedido muito respeito pelos ateus, pois são cidadãos, e as escolhas que fazem são tão certas como as de qualquer religioso”, defendeu.

O babalawo prosseguiu e chamou atenção para o caso do deputado Édson Albertassi. Segundo Ivanir, ele vetou a Umbanda e o Candomblé como patrimônios imateriais do estado do Rio de Janeiro, mas quis conceder a titularidade ao gênero gospel. “O que muitas pessoas não sabem é que ele é dono de produtora exatamente de música gospel”, disse.

Em sua fala final, dos Santos citou os casos em que bandidos têm expulsado fiéis de matrizes africanas, em locais dominados pelo tráfico. “Isso tem a ver com a entrada de pastores em presídios. E isso é um problema da sociedade brasileira. A religiosidade é um patrimônio do País. Temos que deixar uma sociedade melhor para as futuras gerações”.

A umbandista Marilena Mattos falou de prática, e diferenciou religião e religiosidade. “Ter religião não é ter religiosidade. Religiosidade é praticar, crer e fazer. Toda religião não possui sua verdade absoluta. A minha tem de ser melhor para mim; a sua, para você. Ambas nos farão melhores”, discursou Mattos, que, respeitosamente, comentou sobre os anúncios de “Trago a pessoa amada em três dias”. “Me sinto mal. Isso não é religião, não é uma prática de pessoas com conduta. Muitas pessoas vão mostrar atitudes que não são da religião. Ela (religião) precisa me fazer crer, me fortalecer. E é por isso que digo que nossas atitudes são as melhores oferendas para os orixás”, disse a religiosa, que lançou um desafio. “Quem aqui não tem preconceitos? Antes do meu convívio com a Comissão, tinha pavor do Candomblé. Ao conhecer as práticas dos candomblecistas, minha forma de pensar mudou. O respeito é a base de todo e qualquer encontro de gente humanitária”.

Fernando Celino, representante da Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio de Janeiro (SBMRJ) descreveu a intolerância religiosa como uma grave doença a ser tratada pela sociedade. O seguidor do Islamismo acrescentou que religião não vem de imposições. “A intolerância religiosa é um câncer para a sociedade, pois ignora o que o outro congrega e ainda o faz sentir inferior. Se Deus quisesse que todos fôssemos iguais, assim nos teria feito. A religião está no interior do coração e não pode ser imposta”, exclamou.

Ainda em suas palavras, Celino ressaltou que as pessoas deveriam saber que não existe estado muçulmano, mas de maioria muçulmana. “A maioria dos problemas são de questões geopolíticas, e o Islam nunca recomenda uma ditadura. É uma obrigação respeitar as outras crenças. A palavra Islam significa paz. Não avalie a religião pelo religioso”, completou.

A jovem Tamar Nigri, que representou os judeus, foi a última a discorrer sobre a importância da liberdade religiosa. Ela contou sobre a experiência de conviver com várias diferenças, e afirmou acreditar com o fim dos preconceitos entre os segmentos religiosos. “Trabalho numa instituição que tem um projeto chamado Coexistência. Convivemos numa sociedade intolerante, mas creio que conseguiremos acabar com isso. Coexistência é dar oportunidade de conhecer. Essa também é uma proposta do Judaísmo.

Perguntas

O jornalista Ricardo Portugal questionou os religiosos se as novas tecnologias têm contribuído para um mundo mais humanista.

“Comunicação é comunicação. A informática usa o sistema binário, assim como o oráculo milenar africano. Se o conhecimento for usado de forma tranquila, é bom. Na minha cultura milenar não é usada para sabedoria, pois a nossa é oral. Eu, por exemplo, não uso a internet para substituir uma relação com o sagrado”, disse Ivanir dos Santos.

Ao fim, várias interrogações foram direcionadas aos participantes da mesa.

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