Debate na PUC une religiosos, cineastas e acadêmica para falar sobre “Rio de Fé”

O interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR) e conselheiro estratégico do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP), babalawo Ivanir dos Santos, participou de debate na Pontifícia Universidade Católica (PUC), na tarde do dia 02 de dezembro, sobre documentário que retrata a estada do Papa Francisco na Cidade Maravilhosa. O Filme “Rio de Fé – Um Encontro com o Papa Francisco”, de Cacá Diegues, mostra passagens da visita do líder cristão ao Brasil, ocorrida no mês de julho deste ano.

Marcos Vinícius Moura, um dos responsáveis por uma das cinco equipes que o cineasta disponibilizou durante a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), mediou o bate-papo entre dos Santos, a acadêmica e antropóloga Ana Paula Miranda, Diegues e João Carlos Nara Jr., representante de Opus Dei.

“Acho que, quando ele (papa) fala de diálogo e laicidade do estado, não propõe somente as fronteiras do diálogo inter-religioso, mas um questionamento sobre que estado é esse. Um estado que precisa de reforma, pois há produção de violência, de desigualdades. E essa reforma é profunda, pois mexe com a estrutura do capitalismo, e isso, claro, vai além do poder dele, mas que ele chama atenção e pontua. É claro que ele não fala isso à toa”, disse Miranda, que iniciou as falas após assistir à produção juntamente a outros convidados e aos debatedores.

Nara Jr. Citou que a Opus Dei foi a primeira instituição da Igreja Católica a receber pessoas diversas e que o próprio gancho do filme segue ao que o Cristianismo se propõe. “Há um diálogo com Deus dentro de cada pessoa e, por isso, a Igreja entende que Deus também está no outro. Ao que se refere a relações com outras religiões, talvez, haja falha na comunicação. É preciso fazer com que se aumentem esses canais para que se dilua qualquer ruído. Particularmente, nunca gostei dessa expressão ‘tolerância religiosa’, pois nós não toleramos, porque as outras religiões não são negativas, pois os católicos desejam a liberdade religiosa. Entendemos a diversidade”, afirmou.

O babalawo discordou, e disse que a intolerância não é uma questão religiosa, mas humana. “O Criador começou sua obra pela África. Na Bíblia, está escrito que José levou Jesus para o Egito. Então, a infância e adolescência de Jesus foram em território africano. O negócio é: Jesus fez parte de uma cultura. Porém, o Jesus da Galileia é um e o de Constantino, outro. O da Galileia dialogou com a África. O do Constantino é uma aliança clara, entre a filosofia grega e a cultura romana, eurocêntrica. Passa –se a não reconhecer a diversidade, e o papa toca nisso no filme: sobre a importância de reconhecer a diversidade e aceitá-la”, disse o sacerdote do Candomblé, que completou, afirmando que, ao falar sobre intolerância, é preciso saber por qual olhar está se discutindo, pois, segundo ele, Jesus, inclusive, foi acusado de bruxo, assim como os religiosos de matrizes africanas são hoje. “Ele lidou com os pobres, prostitutas, com os essênios e foi perseguido. Sou de uma religião que foi escravizada pela Igreja Católica, pelo estado e, atualmente, é pelos neopentecostais, que, como todos sabem, parte deles pode vender drogas, têm as armas abençoadas por pastores, mas expulsam seguidores da Umbanda e do Candomblé de lugares que o poder paralelo domina. Como você vai conversar com uma pessoa dessa? Esse fato está relacionado com disputa de estado. Quem disputa isso são os cristãos. Nós nos aproximamos, e reconheço que a visita do papa foi um grande avanço pra nós, mas não entra na cabeça de todos os católicos” completou.

Cacá Diegues mostrou-se surpreso com a discussão, e ressaltou que a intenção do filme era realmente a de tratar essas relações entre os diferentes segmentos. “Eu sou apenas um cineasta e me sinto até sem jeito de falar qualquer coisa. O que posso dizer é que o filme tinha realmente o intuito de fazer com que as pessoas percebessem que a diversidade é algo natural do ser humano. A JMJ trouxe isso de muitas formas ao Rio de Janeiro, e a vinda do Papa Francisco ratificou o respeito e o apoio a todos em relação à liberdade religiosa”.

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