Judeus, parceiros da primeira hora

 

Por Diane Kuperman
Diretora da FIERJ para o Diálogo Interreligioso

 

 

 

Judeus, parceiros da primeira hora

Em apenas três anos de existência, a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR) percorreu trajetória invejável, tornando realidade o sonho de um grupo de idealistas dispostos a combater injustiças, denunciar atos discriminatórios e, essencialmente, mostrar à sociedade brasileira que o reconhecimento das diferenças pode ser o caminho para, através do diálogo franco e aberto, construir um mundo melhor.

Ao fazer um rápido balanço, não posso deixar de sentir um profundo orgulho pela parceria entre a comunidade judaica e os movimentos negros, cuja origem remonta ao século passado, quando ainda não se falava em religiões de matriz africana nem de afrodescendentes, e a grande discussão se dava em torno da terminologia correta – se negro ou preto, se pardo ou mulato.

Os judeus atuavam em movimentos de defesa dos direitos humanos, desde os meados do século XIX, mormente nos Estados Unidos, onde juristas, rabinos, deputados, senadores e entidades judaicas lutaram para que os afro-americanos rompessem as barreiras do gueto e conquistassem pleno direito à cidadania. Parceiros de Martin Luther King Jr., os rabinos Abraham Joshua Heschel e Wolf Kelman o acompanharam em todas as manifestações, plantando as raízes do diálogo interreligioso e interracial.  Instituições como American Jewish Committe, B’nai Brith, American Jewish Congress pronunciaram-se com coragem em prol dos direitos dos afro- americanos.

No Brasil, nos últimos 50 anos, organizações femininas e juvenis judaicas trabalhavam em comunidades carentes, buscando garantir, principalmente às mulheres e crianças, atendimento médico e jurídico, além de orientação e capacitação profissional para os jovens. Esse trabalho voluntário era, muitas vezes, paternalista e dependia de laços de confiança estabelecidos entre pessoas que tratavam de convencer seus pares das boas intenções das ações propostas.

Conscientes das resistências existentes, tanto no meio afrodescentente como nos círculos judaicos, decidimos criar, no final dos anos 80, o diálogo Interétnico, que, a exemplo do diálogo Interreligioso, propiciaria trocas e conhecimento mútuo entre as duas comunidades. E um dos pontos em comum era (e continua sendo) a discriminação. Na mesma época, foram fundados o Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP), a Sociedade Brasileira de Vitimologia, o S.O.S Racismo e Antissemitismo; leis de combate à discriminação e ao racismo foram propostas por deputados e vereadores negros e judeus (Carlos Alebrto de Oliveira – Caó, Ronaldo Gomlevsky).

Foi uma década muito rica, com a progressiva tomada de consciência de que uma ação conjunta se fazia cada vez mais necessária. O S.O.S Racismo e Antissemitismo foi implantado na Secretaria de Segurança Pública, então sob o comando do Coronel Nazareth Cerqueira. Após sua morte, passou a ser chamado Centro de Referência Nazareth Cerqueira Contra o Racismo e o Antissemitismo, sendo transferido para a Secretaria de Estado de Direitos Humanos, na gestão do coronel Jorge da Silva. Ambos participaram ativamente da Sociedade Brasileira de Vitimologia e acreditavam profundamente na importância do estreitamento dos laços entre as comunidades judaica e afrodescendente.

O ápice

O ápice de toda esta mobilização foi a organização do I° Seminário Interétnico de Direitos Humanos e Cidadania, promovido pelo CEAP e pela Federação Israelita do Rio de Janeiro – FIERJ, em abril de 1997, que reuniu personalidades tais como Abdias do Nascimento, Waldemar Zweiter, Joaquim Barbosa, Alfredo Lemle, Ivanir dos Santos, Denise Levy, Mãe Beata, Milton Nahon, Edson Santos, Sergio Niskier, Marcelo Paixão, Ester Kosovski, Joel Rufino, Carlos Minc, Jurema Batista, Alberto Nasser, Benedita da Silva, eu mesma, entre tantos outros que continuam se dedicando à causa do diálogo.

Neste ínterim, o CEAP, com apoio de representantes da comunidade judaica, conquistava espaço político e cultural, impondo uma agenda de discussão dos temas importantes para a emancipação efetiva da população brasileira afrodescendente – cotas, saúde, salários, educação, reconhecimento e estudo de sua história e divulgação dos feitos de seus mártires e heróis.

Parceira da primeira hora, a Associação Religiosa Israelita – ARI – participou de todas as ações. A ela, juntaram-se a Congregação Israelita Paulista – CIP -,  as Federações Israelita do Rio e de São Paulo (FIERJ e FISESP), a Confederação Israelita Brasileira (CONIB) e a B’nai Brith.

O terceiro milênio trouxe novos rumos. Com o crescimento do voluntariado e da consciência da responsabilidade social, os debates ampliaram-se, propiciando a Lei 10.639/03, a criação da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, a implantação de cotas nas universidades e ações substantivas no campo do emprego e da geração de rendas.

O momento decisivo para a mudança de paradigma foi a introdução do elemento religioso, que mudou o foco dos debates, antes restritos às questões racial e étnica. Era o que faltava para eliminar as resistências dos ativistas dos diálogos católico-Judaico (da CNBB), judaico-cristão (com o CONIC), Abrahâmico (judeus, cristãos e muçulmanos) que relutavam em abrir espaço para as religiões de matriz africana. A comunidade judaica foi a primeira a reconhecer a condição de religiosos de sacerdotes do Candomblé e da Umbanda.

Emblemática foi a abertura da XVIª Assembleia Nacional do Diálogo Católico-Judaico, que reuniu, no púlpito da sinagoga da ARI, o Babalawo Ivanir dos Santos, o Arcebispo do Rio de Janeiro, D. Orani Tempesta, representantes de diversos credos, além dos rabinos da ARI e da CIP.

Com o Fórum de Diálogo Interreligioso e a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, que se reúne semanalmente na CEUB, todas as crenças passaram a ter um espaço certo, não só para a denúncia de discriminações, mas, principalmente, para atividades conjuntas que, através do conhecimento mútuo, proporcionam a superação de preconceitos milenares.

A realização das caminhadas pela liberdade religiosa deu visibilidade ao movimento, estimulando adesões e apoios e dando ao mundo um belo exemplo de união. As publicações das cartilhas e do livro “Intolerância Religiosa X Democracia” representam valiosa contribuição para a educação das futuras gerações e a formação de mentalidades mais abertas. O concurso escolar promovido pelo CEAP desperta nos jovens interesse por temas pouco conhecidos, mas fundamentais para a compreensão da formação histórica do Brasil. Enfim, as atividades são inúmeras e não cabe listá-las aqui. O importante é que, desde o primeiro passo dado, já se passaram 30 anos e muitas vitórias foram alcançadas. Mas ainda resta muito o que fazer.

Se, no início deste texto, mencionei meu orgulho pelo caminho percorrido, ao encerrá-lo, só me resta externar satisfação pelo dever cumprido e esperança no futuro. Hoje, além da FIERJ e da ARI estarem diretamente ligadas à CCIR, o movimento judaico universitário HILLEL também aderiu, trazendo a certeza de que as comunidades judaicas e de matriz africana estão indelevelmente ligadas. O sonho de um mundo melhor, sem ódios nem preconceitos, não é mero devaneio. É uma realidade a ser alcançada por aqueles que, determinados, não temem desafios e não perdem jamais a esperança e a fé.

 

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