Livre Comércio da Fé

 

Rosiane Rodrigues

Vendo
Fé, firme e inabalável, para qualquer sistema/ doutrina. Dou garantia.
Desesperados, acréscimo de 15%. Promoção especial para céticos.

 

 

 

Livre Comércio da Fé

Nos classificados dos jornais ou em alguns canais de rádio e TV, encontramos uma avalanche de anúncios e programas que vendem “soluções para todos os problemas”. As de amor, então, são uma festa. Sensacionalismos do título à parte. A coisa é bem séria. Assistimos a uma tendência cada vez mais crescente por parte da sociedade em transformar a fé em bem de consumo: quem anuncia um bem ou serviço em qualquer veículo de comunicação de massa tem obrigações e deveres com seus “consumidores”.

 

As perguntas que não querem calar são: sacerdotes são prestadores de serviços? Se são, não estão condicionados às leis que regulam e protegem os consumidores? Se não são, porque anunciam milagres e “soluções de problemas” de qualquer espécie? Fé é um bem disponível no mercado?

Vamos por partes. Em primeiro lugar, cada religião tem uma forma singular de lidar com questões ligadas ao dinheiro. E esta relação dinheiro X religião vem sendo estudada há algum tempo. O que tem chamado a atenção de diversos religiosos e acadêmicos é a relação de compra e venda da fé e de milagres. É o fenômeno de transformar religiosidade – que deveria ser confessional e muito mais um sistema de conduta moral e ética – num serviço disponível para quem pode pagar. Quem não pode é porque não tem fé o suficiente. Será?

Oferta e Procura

Este “mercado” religioso também obedece a regras muito claras, como as de “oferta e procura”. Num país sincrético como o Brasil, o campo é ainda mais promissor. Todos os dias, hordas de desesperados, amantes abandonados, vítimas de adultério etc buscam soluções miraculosas para seus problemas. São nestes momentos de fragilidade – e grande angústia – que residem os mais altos impulsos de “contratar” um serviço religioso que prometa acabar com todas as dores humanas. O nível de autocrítica – quando existe -, por parte do “consumidor”, fica comprometido, e tudo que se quer é a solução imediata da situação.

Enquanto isso, uma quantidade cada vez maior de charlatães e estelionatários, que se autointitulam religiosos ou representantes legítimos de uma doutrina religiosa, se “especializam” em oferecer produtos e serviços milagrosos. Seja “tirando o demônio de sua vida” ou trazendo o “amor em três dias”, tudo é possível (e comprável) neste mercado. Basta que você esteja disposto a pagar para alcançar seu objetivo: seja no cartão ou depósito bancário.

O problema é que, invariavelmente, o produto não é entregue ou há falhas no serviço…

O que fazer?

Ora bolas! Se você contratou o serviço de um suposto sacerdote-especialista, que prometeu resolver o problema que mais aflige a sua vida, nada mais justo que ele RESOLVA! Se não resolver, deve, no mínimo, devolver seu “investimento”. Ou, então, merece ser denunciado por propaganda enganosa e/ou estelionato. É bom lembrar que qualquer relação de consumo é regulamentada pelo Código de Defesa do Consumidor ( http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8078.htm ) e que o crime de estelionato (obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento) é passível de registro policial ( http://www.soleis.com.br/ebooks/criminal1-38.htm ).

A grande vantagem desses “mercadores de ilusão” é que seus “consumidores”, quando percebem que caíram num golpe, sentem-se envergonhados. E não denunciam! Sequer fazem registro de ocorrência policial. Procurar o Procon, então, nem pensar!

A fé é uma das expressões humanas mais singelas. Ela está relacionada à crença sincera em algo que não pode ser tocado ou comunicado. É a certeza da possibilidade de uma dimensão inexplicável. Portanto, quem se dispõe a comercializar este sentimento deve estar consciente que, por mais que consiga fugir e ludibriar as leis humanas, não poderá se abster de explicações ao Criador. Mas, enquanto o castigo final não chega para esses “mascates dos milagres”, vamos denunciá-los e cobrar retorno das autoridades, para que façam o seu papel.

 

Rosiane Rodrigues é jornalista e pesquisadora de religiosidade

 

Deixe um comentário

Voc deve estar logged in para deixar um comentrio.