Maria Bethânia: o canto como narrativa e escritura

 

Marlon Marcos
Especial de Salvador (BA)
Foto de Claudio Leal

 

 

Maria Bethânia

As marcas históricas da força da oralidade em culturas ágrafas no mundo podem ser identificadas pelo legado sócio-cultural e religioso de várias etnias africanas e indígenas em países construídos pelo sistema da colonização moderna e que temos como excelente exemplo de formação civilizatória o híbrido Brasil.

No Brasil, país marcado pela inventividade de matrizes culturais africanas, que aqui chegaram ágrafas, a sábia oralidade de povos como o iorubá, nos legou sistemas e práticas religiosos complexos e nos fez reproduzir e reinventar entre nós elementos das chamadas religiões tradicionais ou religião dos ancestrais, âmago perfilador das antigas sociedades iorubanas.

A palavra se constituiu fundamento nos chamados terreiros jeje-nagôs baianos, assim classificados pelo antropólogo Vivaldo da Costa Lima, nome dos mais importantes neste país quando o assunto é a etnologia das religiões de matriz africana; a palavra dita trazia o teor mítico para a composição de todos os rituais litúrgicos do candomblé e reforçava a importância da oralidade como instrumento de transmissão de valores e sentidos religiosos imprescindíveis para a existência do culto aos orixás.

Assim sendo, a sacerdotisa maior, chamada iyalorixá, ou o sacerdote supremo, chamado babalorixá, funcionava (e ainda funciona) como transmissor oral do conhecimento religioso reproduzindo com afinco e imaginação o papel social dos griôs no universo iorubano.

As narrativas musicais na voz de Maria Bethânia

No cenário da Música Popular Brasileira existem diversos compositores que retransmitiram, em sons e letras, os sentidos culturais dos negros iorubanos no Brasil: Dorival Caymmi, Vinicius de Moraes, Baden Powel, Edu Lobo, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Paulo César Pinheiro, entre outros. Tivemos vozes femininas pioneiras amalgamando universos religiosos como o candomblé de ketu e angola, umbanda, quimbanda na rota diaspórica africana em terras brasileiras: Elis Regina cantou Arrastão, O canto de Ossanha, Reza, entre outros sambas afros; Clara Nunes foi a maior porta-voz no formato religioso umbanda, no sentido carioca desta prática religiosa. Agora, no modelo tradicional jeje-nagô de alguns terreiros baianos, o canto mais representativo, em nossa canção, foi e é o de Maria Bethânia.

Antes mesmo de conhecer e se iniciar com Mãe Menininha do Gantois, Maria Bethânia já cantava orixás e caboclos de modo mais disperso e sem as modelares representações estéticas que o candomblé de ketu trouxe para sua arte.

A partir de 1973, tornando-se freqüentadora do Terreiro do Gantois, Maria Bethânia passou a ter posse de um saber litúrgico que ela, com cuidado e respeito, foi integrando ao seu ofício de intérprete e espalhando pelo Brasil a beleza da religiosidade de origem iorubana reinterpretada na Bahia.

A sua voz, de modo freqüente, passou a transmitir trechos de narrativas míticas recriadas por compositores como Caetano Veloso e Gilberto Gil, quando não, de modo integral, a ecoar cânticos sagrados aos orixás do candomblé. Nascia um tipo de cantora, absolutamente dramática, que em sua voz grave hipervalorizava os contornos fonéticos da palavra, pronúncia impecável, baseando-se em dizeres narrativos postos a contar histórias e a preservar tradições nas quais ela sempre acreditou como tradutoras de uma real brasilidade. O Brasil que ela insiste em cantar e perfilar como seu.

Hoje, Maria Bethânia tem 45 anos de carreira sem interrupções. A voz de 63 anos (fará 64 em 18 de junho deste ano) está apuradíssima e sob o total comando da sua vontade expressiva, do seu rigor e simplicidade estéticos, da sua força como intérprete, da sua fé e das suas idiossincrasias que a tornam uma das mais singulares artistas surgidas no cancioneiro brasileiro.

Seus motes musicais encontram fragmentos míticos da historicidade do seu Recôncavo na Bahia; o canto de Maria Bethânia lança luz sobre o povo negro que venceu a escravidão e mesmo ainda sofrendo perseguições ligadas à intolerância religiosa, manteve ativo o candomblé como uma das religiões mais representativas neste país. A voz desta mulher singra os mares da possibilidade expressiva na junção vital da sonoridade à palavra, que ela bem dita a favorecer a difusão do autoconhecimento entre nós brasileiros. A palavra entendida por ela como imprescindível à sua arte; ela que é incansável artífice do formato canção e fez dele também, instrumento de contação de histórias.

Saem do canto de Maria Bethânia escrituras, no mesmo tom autoral que seus compositores e escritores favoritos lhe entregam; escrituras de uma poeta que escreve com a voz naquela intensidade e verdade vistas na canção Palavra, de Moraes Moreira, que encerra o seu trabalho comemorativo de 25 anos.

Então, quando se ouve o canto narrativo de Maria Bethânia, pode-se afirmar: ali está o canto da griô, uma espécie de escritora vocal do Brasil. Atualmente, o maior artista da nossa canção afeito às suas luso-africanidades.

FONTE: Terra Magazine

 

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