Meio acadêmico deve mediar para superar conflitos – Congresso IFCS

Meio acadêmico deve mediar para superar conflitos

O meio acadêmico tem papel importante a cumprir na mediação de acordos para solucionar conflitos gerados por intolerância religiosa. Afirmação nesse sentido foi feita pelo Babalawo Ivanir dos Santos, Interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), na abertura do Congresso intitulado História, Expernêcias Religiosas e Democracia, realizado no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Advertiu Ivanir dos Santos que os grupos que pregam o ódio não são religiosos, e sim fascistas com objetivos políticos e econômicos que estão provocando conflitos até entre familiares. O Interlocutor da CCIR ressalva que a maior parte dos evangélicos não age de forma odiosa. Acrescentou que há risco para a liberdade de expressão e para todas as liberdades.  Ivanir dos Santos considera a situação como de retrocesso conservador.

O Procurador Jaime Mitropoulos comentou sobre os vídeos colocados na Internet e ofensivos a religiões de matriz africana. Ele disse que a lei determina que os meios de comunicação procurem preservar a harmonia. Frisou que em um estado laico o Poder Público cuida das garantias que as minorias tem direito. Na visão do Procurador a comunicação virtual não pode servir para atacar. Ele afirmou que o país é plural, mas existe o racismo e a intolerância religiosa, e às vezes eles se manifestam muito virulentamente. Lembrou que o Ministério Público esteve na casa de Mãe Conceição cinco ou seis vezes.

Andrei Soares, Diretor da Secretaria de Direitos Humanos (SDH) da Presidência da República afirmou que a retórica de satanização preocupa. No entendimento de Soares as alianças entre milícias e grupos pentecostais são pontuais, mas preocupam. O Diretor também criticou o mau uso de redes eletrônicas e citou o caso de uma moça em Guarujá, que foi atacada e morta depois que informações indevidas a respeito dela foram postadas na Internet.

Revelou Soares que 36% das denúncias de intolerância atingem pessoas de religiões de matriz africana, enquanto 25% afetam evangélicos, 14% espíritas e 10% católicos. Disse também Soares que 20% da população acham que tem o direito de odiar. O Diretor da SDR considera necessário encontrar uma forma de solucionar esta fissura. Ele ressalta, porém, que não há solução simples.

O mediador da mesa, Professor André Chevitarese, da UFRJ diz que, no caso do ensino religioso, há um problema que vem desde o Governo FHC, quando começou a validação de diploma de ensino religioso.

Autoridades devem manter o equilíbrio

As autoridades devem agir para manter o equilíbrio no acesso aos meios de comunicação. A opinião é do Presidente da Associação acional de Mídia Afro (ANMA), Márcio de Jagun, na mesa de debate intitulada Mídia e Liberdade Religiosa, durante o congresso História, Experiências Religiosas e Democracia, realizado no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Lembrou o Presidente da ANMA que existem 11 emissoras concedidas para evangélicos, seis para católicos e três para suposta administração ecumênica. Os demais grupos em não dispõem de um meio de veiculação e o poder Público concedente deve possibilitar o acesso.

Criticou Márcio de Jagun o fato de que a mídia tem sido mal usada em relação á liberdade religiosa. Lembra que a mídia se autorregulamenta em vários aspectos, mas em termos de divulgação religiosa o mesmo não ocorre.

Observou Márcio de Jagun que a autoridadade precisa ser mais preparada e ser mais eficaz. Recordou que em São Paulo existe Delegacia para casos de intolerância religiosa, mas o mesmo não ocorre no Rio de Janeiro.

A Jornalista e Professora, Magali do Nascimento, da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp) afirmou que há hegemonia católica e, em geral o catolicismo recebe tratamento positivo. Já as religiões de matriz africanas são mostradas como exotismo e como folclore.

Magali do Nascimento disse que nos meios de comunicação há problema de desinformação a respeito das religiões de matriz africana. Destacou que as mídias digitais abrem caminho para a construção de uma nova imagem para estas correntes religiosas.

Ao abordar a correlação entre política e religião a Professora lembrou que 30% das concessões de televisão estão em poder de parlamentares. Disse que tem aumentado a presença de parlamentares evangélicos nas comissões que tratam de concessões no Congresso Nacional.

O Poder Público erra

Existe desconhecimento a respeito da realidade afro-brasileira e isto abre a possibilidade de preconceito. O comentário foi feito por Ana Paula Miranda, Pesquisadora da Universidade Federal Fluminense (UFF), durante o congresso História, Experiências Religiosas e Democracia, realizado no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Acrescentou a Pesquisadora Ana Miranda que o Poder Público também erra. Citou o caso de um aluno da Fundação de Apoio ao Ensino Técnico (Faetec) que foi submetido em uma seleção ao critério de aparência pessoal naquela unidade de ensino por trajar paramentos de religião de matriz africana. Para a especialista o aluno e a sua família foram discriminados.

Para a Pesquisadora da UFF a agressão moral está embutida na violência que é praticada, e o ato de intolerância se manifesta pela ofensa moral. Conclui afirmando que a agressão afeta a pessoa atingida e a sua identidade.

Na mesma mesa de debates a Jornalista Tereza Cruvinel, da Rede TV, disse que alguns grupos religiosos procuram impor a sua visão e que um Estado laico deve dispor de meios para impedir isto, pois tem sido crescentes as manifestações de intolerância.

A Jornalista frisou ainda que os que são contrários ao laicismo do Estado são contra a democracia. Disse também que o Estado é laico para poder proteger as religiões e os religiosos que sofrem ataques. Tereza Cruvinel recordou que, na eleição de 2010, em alguns templos chegaram a ser distribuídos folhetos que apontavam a então candidata Dilma Roussef como aborteira. A Jornalista acredita que no atual processo eleitoral a situação deve piorar.

Para Tereza Cruvinel a própria mídia inclui tem responsabilidade pelo fato de temas como estes serem incluídos na agenda. Afirmou que isto é ruim para a sociedade e a própria mídia demonstra estar despreparada para o laicismo. Ela condena também a mídia por levar o público acreditar que nenhum partido presta. No caso específico das emissoras de televisão. A Jornalista destaca, em 60 anos d existência, a mídia sempre foi privada, ou seja, o Estado e a sociedade sempre ficaram alijados.

O professor Daniel Justi, da UFRJ, mediador mesa, assinalou que há um embate maior entre cristãos católicos e evangélicos. Para ele, assim como o Vaticano é um Estado, em algum momento os evangélicos poderão contar com o seu próprio Estado.

Rede social virtual pode ajudar a melhorar a imagem do Candomblé

O tema da religião não entra na formação dos Jornalistas. O comentário foi feito pela Jornalista Cleidiane Ramos, do jornal A Tarde, da Bahia, no Congresso História, Experiência Religiosas e Democracia. Acrescentou Cleidiane Ramos que o desconhecimento geral sobre religião resulta em superficialidade na abordagem de ritos, festividades e outros aspectos. O Professor Ricardo Freitas, da Universidade Estadual da Bahia (Uneb), observou que os grupos desprestigiados e invisibilizados pela mídia hegemônica, na verdade, nem sempre são invisíveis. A Jornalista registrou que Mãe Estela escreve um artigo semanal na página de opinião de A Tarde tratando do Candomblé de forma vinculada a vários assuntos de interesse geral.

Cleidiane Ramos disse que, em relação ao Candomblé, a falha de formação é mais complicada pois leva à linha jornalística da curiosidade. Ricardo Freitas se mostrou confiante pelo fato de as redes sociais eletrônicas estarem funcionando na direção contrária à da mídia hegemônica no que diz respeito à imagem do Candomblé. O Professor enfatizou que os jovens que acessam as citadas redes exibem a sua ligação com a espiritualidade de matriz africana.

Ricardo Freitas disse que existe projeto em comunidade de religiosidade de origem africana em Ilhéus (BA) para profissionalizar jovens na captação de imagens de terreiros. Em sua opinião a participação desses jovens nas redes sociais virtuais tem sido importante. O Professor lembrou que a iniciação no Candomblé de uma jovem chamada Ariadne, que havia participado de uma edição do Big Brother Brasil, foi curtida por 20 dias.

O Acadêmico da Uneb disse que a mídia convencional contribui para a formação de estereótipos, enquanto as redes sociais podem ajudar para disseminar uma cultura de paz. Cleidiane Ramos recordou o Pai de Santo Joãozinho da Goméia, que veio de Salvador (BA) para o Rio de Janeiro (RJ) em meados do século 20, é até hoje muito pouco pesquisado.

Separação entre Estado e Religião é superficial

A separação entre Igreja e Estado é superficial  e, no Brasil, em toda eleição se usa a religião com objetivo político. A opinião foi expressa pelo Professor de Ciências da Religião, Osvaldo Ribeiro, da Unidas do Espírito Santo, no Congresso História, Experiências Religiosas e Democracia. Com relação à Teologia da Libertação o pesquisador a considera um caso de instrumentalização inversa à que é feita para o mal.

O Professor de Cultura Religiosa Geraldo Marques, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ), que também é Padre em uma Paróquia no bairro de Sepetiba, identifica uma forte articulação entre fé e vida, não na forma de discurso, mas na de resistência e de resiliência. Ele recordou que nas décadas de 1980 e 1990 ocorreu um expressivo fenômeno de por ocupações por moradia no Parque Anchieta, no citado bairro. O Professor sublinhou que há um movimento de solidariedade e ainda que as pessoas pensam nas questões políticas e vêem que as mudanças não vão surgir de forma milagreira.

Na visão de Marques há uma dicotomia entre a política e a política partidária, que só acontece de quatro em quatro anos. Para o especialista, viver o processo de organização é viver o ecumenismo. Disse que viver a fé não é desvinculado de agir. O religioso lamentou que as pessoas  em Sepetiba estejam em situação de abandono, com a violência do tráfico de drogas e das milícias e que isto marca.

O Professor Ribeiro alertou para o fato de que mesmo entre adeptos de religiões se verifique muito desconhecimento religioso e, portanto, sem uma relação crítica. Ainda com relação ao Estado laico, o acadêmico acrescentou que a realidade não é a de um discurso franco e aberto. O panorama desenhado, segundo Ribeiro, é o de um espetáculo dantesco de plataforma laica que, ao mesmo tempo, tem de lidar com a Religião. Ele disse duvidar se vai ser possível o Brasil ter uma sociedade saudável tendo de lidar com esta dicotomização.

Na mesma mesa o Coronel da Polícia Militar aposentado, Ubiratan Ângelo, e Representante da Maçonaria na Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR) afirmou que a Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa é uma iniciativa social, e não religiosa. Afirmou que os intolerantes são os que fazem mau uso da palavra da fé.  Acentuou que a Caminhada tem apoio da mídia, chama a atenção dos políticos e. Concluiu dizendo que a Caminhada atinge um novo patamar, com abertura para acordos.

Revolta dos Malês é símbolo da intolerância contra Islã

Uma das principais evidências da intolerância contra os muçulmanos na época do Império no Brasil foi a Revolta dos Malês, que estalou em Salvador (BA) exibindo a insatisfação de negros adeptos do islamismo com a perseguição por eles sofrida. Análise nesse sentido foi feita pelo Professor Paulo Gabriel, da Universidade Federal Fluminense (UFF) no Congresso História, Experiências Religiosas e Democracia. Na mesa sobre Liberdade Religiosa e Liberdade de Expressão, O Professor Gabriel ressalta que, mesmo tanto tempo depois daquela rebelião na Bahia, ficou demonstrado que a vitalidade espiritual estava nos negros que chegavam e eram submetidos como escravos.

O especialista recordou ainda que a parcela de 15% do total dos que chegaram ao Brasil do fim do século 19 até 1930 era formada por muçulmanos.  Ele disse que havia estereótipo sobre os muçulmanos e a eles se atribuía características de fanatismo e atraso. Esta intolerância originada por desconhecimento e preconceito não ficava restrita aos espaços de religião, pois se estendia aos de convivência pessoal, familiar e de grupo. Gabriel registrou também que no cotidiano brasileiro os descendentes de árabes são praticamente forçados a cortar os laços com a sua origem no Oriente Médio.

A primeira mesquita do país, segundo o Professor da UFF, começou a ser construída no ano de 1938 e foi concluída em 1946. Na época da ditadura militar (1964 a 1985) os árabes em geral eram vistos como pró-soviéticos. Na década de 1970 os árabes já eram vinculados a terrorismo, afirmou ele.  Após os atentados ocorridos em 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos (EUA), o islamismo voltou a ser identificado como fanatismo no plano internacional.

Integrou a mesma mesa a Pesquisadora Lígia Duque Platero, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que em sua apresentação usou notas de uma pesquisa inicial, sobre o problema da perda da eficácia das curas dos xamãs Kaiowá e Guarani na reserva de Dourados, associada à hipótese da perseguição religiosa e/ou intolerância religiosa na reserva, no período entre 1928 e 1980. A temática se associa à questão da conversão religiosa dos Kaiowá e Guarani a igrejas evangélicas. Durante a exposição, foram mostrados vários elementos da política indigenista do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), em associação à metodista Missão Evangélica Caiuá (MEC), que contribuíram para a descrença de parentelas Kaiowá e Guarani em relação às curas dos seus xamãs. Entre esses elementos, foram destacadas situações de violência simbólica e física contra os praticantes da religião dos Kaiowá e Guarani na reserva de Dourados, nas décadas de 1960 e 1970, principalmente as acusações de que as cerimônias tradicionais indígenas eram “coisas do diabo”. A pesquisa se insere nos campos da Etno-história, Antropologia Política e Antropologia da Religião.

A Pesquisadora Lígia Platero advertiu que o aumento do número de fazendas naquele estado esvaziou reservas de índios. Ao mesmo tempo, o desmatamento na reserva tornou inviável um modo de vida próprio e perto da natureza. A especialista já entrevistou 16 pessoas, inclusive uma professora Kayowá Guaraní. O seu trabalho revela que a descaracterização é mais ampla em vem de muito tempo. Com a política indigenista iniciada em 1916 levou ao surgimento dos capitães indígenas. Estes, em 1917, não eram figuras importantes, mas com o tempo passaram a ocupar o lugar de liderança dos Xamãs.

Em 1928, segundo a estudiosa, chegou à reserva a primeira missão evangélica. Na década de 1950 as missões proibiam os cultos dos índios e diziam se tratar de coisa do diabo. Até os anos 1980 eram formados grupos de convivência e solidariedade. A conversão dos índios não significava aceitar a religião dos missionários. As famílias indígenas compareciam às sessões evangélicas, mas também participavam dos encontros da sua própria espiritualidade.

Com doutorado que teve a Umbanda como tema da sua tese, José Henrique de Oliveira, da UFRJ, disse na mesma mesa que, durante o Estado Novo, a Religião usou a institucionalização e a homogeneização da Umbanda contra a repressão policial. O acadêmico acrescentou que à época o Poder Público central tinha interesse pela persistência da Umbanda por considerar que ela reunia elementos da tradição indígena, da catequese europeia e da influência africana.

O primeiro centro de Umbanda, a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, havia surgido em 1908. A Federação Espírita de Umbanda foi fundada em 1939 e o I Congresso Espírita aconteceu em 1941. Depois apareceram federações nos estados. A constatação de Henrique de Oliveira é no sentido de que a mediação das federações levou a uma burocratização dúbia do espaço sagrado. A principal atividade das federações era cuidar de elaborar e registrar os estatutos dos centros espíritas. Com o passar do tempo as citadas entidades associativas foram perdendo importância, sobretudo a partir da promulgação da Constituição de 1988, cujo texto incorporou o direito à liberdade religiosa.

Outro palestrante da mesa foi o Professor Jonas Machado, da Federação de Teologia Batista de São Paulo. Ele assinalou que o diálogo interreligioso não é fácil, mas é necessário. Em sua opinião o cuidado da alma de cada homem deve ser deixada a cargo apenas de cada homem. Concluiu dizendo que a ideia de liberdade religiosa deve se ligar à de Estado laico, e ainda que usar a religião como trampolim para o poder restringe a religião.

Apenas pela educação se pode lidar com a relação racial

No terreiro de Candomblé a expressão religiosa é a parcela mínima. Na verdade, ali estão formas de luta que podem mudar a correlação de forças na sociedade. Observação nesse sentido foi feita por Silvanyi Eclênio, da Secretaria Especial de Políticas de Igualdade Racial (Seppir), na Roda de Conversa intitulada Racismo e Religião, no Congresso História, Experiências Religiosas e Democracia.

A Filósofa Helena Teodoro afirmou, na mesma roda que a educação é a única forma de lidar com a complexidade da relação racial. Ela disse se trata de parte de um modelo que precisa ser construído. Disse ainda que, para isso, há necessidade de ter consciência política. Ressaltou que na mídia e na escola se incutem idéias desvalorizam os negros e as negras.

 Ao comentar sobre a aproximação de pessoas de confissão pentecostal de militantes do Movimento Negro com o objetivo de afastá-los de religiões de matriz africana Helena Teodoro recordou que é uma prática antiga. Salientou que o Movimento Negro deve ter abertura para se relacionar comas religiões de origem africana.

Silvanyi Eclênio lamentou que o Estado não vai fazer acontecer a Lei 10.639/03, que obriga a rede escolar a ensinar História da África e Cultura Negra. A executiva da Seppir acrescentou que o meio acadêmico, por sua vez, não tem o acúmulo necessário para levar a determinação legal adiante. Em sua opinião a intolerância é a face mais perversa do racismo que atinge as religiões de origem africana, pois nega a outra cosmovisão, a outra forma de se relacionar com o sagrado. Para ela a racismo é a base que sustenta o poder.

Apontar Islã como fundamentalismo interessa às potências ocidentais

Apontar o Islamismo com fundamentalismo é de interesse das potências ocidentais. A advertência foi feita por Sami Isbelle, da Sociedade Brasileira Muçulmana no Rio de Janeiro (SBMRJ) no Congresso História, Experiências Religiosas e Democracia. O palestrante disse também que os muçulmanos são mais de dois bilhões de pessoas em todo o mundo e não são todos radicais e extremistas. Ele afirmou que hoje são apontados como fundamentalistas o grupo Hamas, na Palestina, O Boko Haram, na Nigéria, a Irmandade Muçulmana, no Egito e o Estado Islâmico, no Iraque e na Síria.

O representante muçulmano observou que entre os árabes surgiram as bases para várias ciências, entre elas a Matemática e a Medicina e não havia medo no sentido de a ciência se opor à revelação de Deus. Isbelle acentuou que o Islã sempre trilhou pelo meio termo. Registrou que muitos países árabes tentaram usar sistema político ocidental e se deram mal. Diversos países tentam agora voltar a um sistema oriental.

No Egito, de acordo com Isbelle, após a derrubada de Hosni Mubarak, foi adotado um sistema islâmico, sendo o presidente deposto e entraram os militares. Afirmou que a Síria é ditatorial e a população foi contra a ditadura. Depois houve infiltração de outros grupos e todos passaram a ser apontados como radicais e fundamentalistas. Isbelle assinalou que mesmo tendo transcorrido mais de uma década dos atentados de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos (EUA), muito ainda ignoram que Osama Bin Laden era agente da Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês), dos EUA.

Na mesma mesa houve apresentação da Professora Gláucia Lima, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que estuda a Habitação com base na ótica da Pastoral de Favelas. A Professora pode constatar que, apesar de a Igreja Católica ser hegemônica a citada pastoral e as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) eram contra-hegemônicas. Era uma ação que seguia a orientação da Conferência Episcopal de Puebla, do fim da década de 1970, e que estabelecia a solidariedade para com os mais pobres e entravam em pauta temas como o dos negros, dos índios e das mulheres.

Naquele momento, de acordo com a Pesquisadora, o trabalho era distante do assistencialismo, como o praticado pela Fundação Leão XIII, por exemplo. Havia apoio a associações de moradores de favelas. As atividades não se resumiam ao institucional. Havia a aproximação da Igreja com escolas, sindicatos e outras entidades. Afirmou ainda a Professora que a Pastoral de Favelas não era apenas religiosa. A Igreja teve, assim, dois projetos diferentes, ligados a duas visões políticas deferentes.

Lair Amaro, Pesquisador da UFRJ, ao falar sobre mitologia, destacou que o ensino sempre levou em consideração apenas a mitologia grega. Revelou que em uma aula houve aceitação por parte dos alunos quando ele ensinou sobre a mitologia grega e a Nórdica e rejeição quando ensinou sobre mitologia Yorubá. Citou ainda o caso de um professor de Educação Física que deu aula de Capoeira e foi hostilizado por pais de estudantes que sob a alegação de que ele ensinava macumba.

Budismo no Japão é receoso

No Japão o batismo das crianças é feito no Xintoísmo, o casamento é realizado pela Igreja Católica e o funeral pelo Budismo. O resumo foi feito pelo Bispo Budista Jyunsho Yoshikawa no Congresso Democracia, Experiências Religiosas e Democracia. O Bispo nasceu e fez os primeiros anos de estudos no Brasil e viveu 15 anos no Japão. Naquele país asiático, de acordo com Yoshikawa, é difícil para o Budismo contar com fiéis entre as pessoas idosas e entre os jovens é mais fácil.

O religioso explicou na mesa sobre o tema Fundamentalismo e Democracia que o Budismo é uma Religião com cerca de três mil ramificações pelo mundo. O Budismo no Japão é muito receoso. Já o Xintoísmo, na prática, se resume à família Imperial e aos de faixa etária mais avançada. Estes últimos consideram o Rei como um Deus.  Até hoje, para os idosos, a realeza xintoísta é divina.

Na mesma mesa de debates o Professor Murilo Mehny, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) disse que as informações sobre o Islã e o Oriente Médio não são tão distantes dos que vivem no Brasil. Ao comentar sobre a condição da mulher o Pesquisador destacou que a mulher é oprimida no Mundo Árabe e que a situação não é muito diferente no Brasil. Os casos de homicídios contra mulheres na sociedade brasileira ocupam a sétima posição mundial e superam os da maioria dos países muçulmanos. Mehny entende que parte do fundamentalismo atribuído aos islamitas é imagem construída.

O Professor Pedro Lima Vasconcellos da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) frisou que o fundamentalismo nasceu da modernidade e se rebelou contra ela. Destacou que a modernidade estabeleceu uma especificação fundamental que é a pluralidade e esta passou a valer como pluralismo, sendo este um valor que enriquece a sociedade. Para Vasconcellos o Brasil não está isento de surpresa, com a imposição de um simbolismo religioso, ficando os demais submissos.

Dificuldade em discutir racismo prejudica ensino

Nenhum currículo de ensino religioso vai dar conta de todas as especificidades ligadas ao tema. A opinião foi manifestada pela Professora Sandra Gurgel, da rede escolar municipal e da estadual, no Congresso História, Experiências Religiosas e Democracia. Na análise de Sandra Gurgel o ideal seria o ensino ministrado em uma disciplina denominada Ciência da Religião e não aulas de religiosidade confessional. A educadora aponta como maior obstáculo a superar no Brasil a dificuldade em discutir o racismo em um país racista. Além disto, segundo a Professora, predomina a cosmovisão do individualismo e do mercado.

Ao participar da mesa Escola Pública e Ensino Religioso Sandra Gurgel afirmou que não quer ter sempre o Cristianismo como parâmetro. Sublinhou que para ver o outro como o outro é preciso tirar as vestes da certeza e colocar as da incerteza. Indagou se é possível existir ensino religioso confessional sem se fazer proselitismo e se isto seria uma prática de Estado laico. Para a Professora é urgente adotar uma alternativa menos agressiva do que o ensino confessional aplicado em escolas públicas de três unidades da Federação.

Na mesma mesa a Professora Regina Bustamante, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirmou que mais importante do que a tolerância é o respeito â diversidade. Acrescentou que o ensino de História deve ser feito em prol do respeito à diversidade religiosa.

O representante da Comunidade Luterana , Professor Pedro Puentes, afirmou que alguns achavam que o ensino de Religião seria um instrumente para ajudar à paz e o Brasil também entrou nesse processo. Ele disse que, se o objetivo principal era a paz é necessário indagar se ele se perdeu no caminho ou se nunca entrou no caminho.

A platéia teve papel importante após a apresentação dos palestrantes, com significativa presença de professores de nível fundamental e médio. Sandra Gurgel respondeu a um deles no sentido de que a adoção de ensino religioso confessional foi decisão que saiu de gabinetes e de reuniões com Religiões e entre elas. Em sua avaliação é preciso ouvir os profissionais da categoria

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