O tempo é o senhor da razão

 

por Ivanir dos Santos

 

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A Audiência Pública convocada pelo Supremo Tribunal Federal sobre a Ação de Inconstitucionalidade (Adin), movida pelo DEM, relativa às cotas nas universidades mostrou-se positiva para as lideranças negras e anti-racistas. Para quem acompanhou o debate da adoção da política de cotas – transmitido pela TV Justiça – ficou a sensação de que os argumentos dos grupos que preferem não adotar Ações Afirmativas para negros e afrodescendentes são, no mínimo, inconsistentes. Na verdade, pareceu um embróglio formado para a manutenção do status quo de uma elite que pensa que podeia ser escravocrata.

A falta de conhecimento histórico, para não falarmos em manipulação dos fatos, do senador Demóstenes Torres (DEM), presidente da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado Federal, foi indigna para alguém que ocupa esta posição. Sua insensibilidade – ao afirmar que mulheres negras não foram estupradas e que mantinham relações sexuais consentidas com os senhores de fazendas, no tempo da escravidão – às vésperas dos cem anos do Dia Internacional da Mulher, revelou o descaso do parlamentar em relação as lutas de milhares de pessoas ao redor do mundo. Homens e mulheres que lutam por Justiça e por Cidadania, além de direitos e reparações necessárias.

Outros opositores às políticas de Ações Afirmativas, que nos faz lembrar os negacionistas, não compareceram ao debate. Alguns nem chegaram a apresentar justificativas. Foram eles que deixaram os únicos negros que faziam parte da camapanha do “contra”, sozinhos. Essa é uma manobra que as elites sempre utilizaram. Usam negros contra seus próprios irmãos e depois os abandonam.

A ausência desses setores talvez também tenha ligação com o impacto causado pelas declarações da Secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, que dias antes, na Faculdade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, reafirmou a importãncia das Ações Afirmativas para combater as desigualdades.

Reconhecer a origem de um problema é o passo mais importante para superá-lo, já dizem as diversas escolas de psicanálise. Os grupos políticos e acadêmicos que se opõem a política de cotas nas universidades, não conseguiram justificar, de forma mínima, os motivos que os levam a pensar desta forma. Os argumentos utilizados ou foram indecorosos – como no caso do senador Demóstenes – ou desprovidos de qualquer sentido histórico e sociológico.

Esses grupos tiveram contra si os argumentos do fato do Brasil ter vivido 363 anos de escravidão de milhares de africanos, sem preocupar-se com a adoção de políticas públicas que efetivamente cuidasse de pretos e pobres, que garantisse equidade de acesso aos sistemas oficiais de ensino, “que promovesse a Reforma Agrária e escola para todos”, como queria Joaquim Nabuco há 122 anos. Aí, sim, não precisaríamos de cotas.

 

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Ivanir dos Santos é pedagogo, militante do Movimento Negro e secretário-executivo do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas

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