Os cacos da Nossa Senhora Quebrada nos Ferem a Todos

 

Michel Gherman

 

Participei durante alguns anos da Comissão de Combate a Intolerância Religiosa. Em um dos eventos que tomei parte pela Comissão, ocorrido em uma Igreja católica no bairro de Bonsucesso, houve um encontro de vários segmentos religiosos, além de grupos não religiosos na sociedade civil.  Neste momento,  algumas Casas de Culto de Candomblé estavam sob risco de serem incendiadas, principalmente na Baixada Fluminense. Durante a reunião na Igreja, firmou-se o compromisso de lutar contra intolerância religiosa, não importando de qual tipo e de qual religião se tratasse. Lá, foi dito:

“A tentativa de incendiar casas de candomblé não deve ser um problema do candomblé, mas uma questão para todos.”

Nesta perspectiva, a cena dantesca da quebra de uma Santa na Avenida Atlantica, durante a Marcha das Vadias, não foi entendida por mim sob uma ótica teológica. Primeiramente porque não sou católico, em segundo lugar não tenho conhecimentos teológicos cristãos e,  finalmente, porque sequer sou religioso, ao menos em um sentido estrito.  Minha preocupação está justamente na apropriação social que a quebra de Nossa Senhora pode ter. Minha preocupação é de como os porteiros, garçons, trabalhadores, donas de casa, enfim, todos os milhões de devotos que viram esta cena, como eles se sentiram e de como entenderam o ato.

Assim, acredito que a quebra da santa não foi uma ato anti- religioso, nem mesmo anti-clerical. Ao contrario, creio que os manifestantes que quebraram a santa em praça publica (e que segundo organizadores do ato não haviam combinado com a Marcha das Vadias que iam quebrar a santa) cometeram um ato religioso, religioso no pior sentido da palavra. Religioso no que diz respeito a arrogância, ao imperialismo cultural que eles tem, na quebra da santa eles reproduziram os piores momentos do fenômeno religioso. Não se preocupando com o Outro, eles quebram a imagem de uma santa porque eles acham que isso é o certo, da mesma maneira que a intolerância religiosa praticada pelos fundamentalistas fazia e faz.

Esta arrogância os coloca em uma posição quase clerical, são sacerdotes da intolerância que acionam sentimentos religiosos e de ofensa que podem aumentar o clima de intolerância religiosa no Brasil, além de fortalecer justamente as correntes mais perigosas do mapa religioso brasileiro.

Enfim, antes que estes neo sacerdotes da intolerância religiosa façam abrir o inferno de Dante brasileiro, parafraseio aqui um dito de Autor  bastante conhecido,  agora endereçado aos milhões de crentes e não crentes que ficaram ofendidos com uma cena que está longe de afetar somente os católicos:

“Perdoai-vos senhores e senhoras eles não sabem o que fazem.”

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