Os desafios contemporâneos da alteridade

 

por Reverendo Marcos Amaral

 

 

 

Os desafios contemporâneos da alteridade

“A ignorância é a mãe de todas as heresias”. Essa frase cunhada por João Calvino, o pai do presbiterianismo, aponta desde o século XVI a clara consciência do reformador cristão, que o ambiente apropriado para todo ato de intolerância e preconceito é a ignorância.

Aos discordantes, que significa a palavra herege, a única sorte: a fogueira onde devia queimar a mente que atrevesse marcar posição, defender crenças, proteger o patrimônio da liberdade e autonomia. Para o pai do presbiterianismo, todo ato de intolerância tem necessariamente seu útero nas trevas da total ausência de conhecimento e informação. Não há um só ato de extremismo e preconceito, seja de credo, gênero, opção sexual, cor etc, que possa minimamente encontrar amparo no evangelho cristão.

As diversas escravidões a que o povo hebreu foi submetido o levaram a uma prática de aprendizado e convívio com variadas culturas, o que possibilitou suas inevitáveis expansões econômica, cultural e política. A anunciação do Menino se faz em ambiente surpreendente e desfavorável para seus progenitores, pois José, diante do espetaculoso anúncio, teria que passar a encarar o estigma de se ter uma mulher grávida sem que tenha se deitado com ela, o que naturalmente coloca Maria no rol das mulheres difamadas. Além disso, aquele de quem se dizia ser o filho de Deus nasce em lar pobre, advindo de uma cidade igualmente inexpressiva, o que lhe garante desconfiança e rejeição.

Os atos de intolerância que, como setas alucinadas, ferem nosso cotidiano já abalroado de sofrimento e tantos outros desrespeitos a cada esquina da cidade fria necessariamente exigem uma resposta rápida e assertiva, como única maneira de estancar na gênese qualquer expressão que queira fazer ressurgir ou mesmo perpetrar ações mal vindas, das quais uma sociedade democrática não deve tolerar, quanto mais conviver, ainda que sejamos todos defensores do convívio plural e democrático, mas que, em sua base, se requer exigir o direito mais básico e intocável de todos, que é o sagrado direito ao culto e exercício da fé.

Vivemos em um momento especialíssimo na história da humanidade. Cristãos e não cristãos, todos estamos atordoados, buscando compreender sem muito sucesso o que está acontecendo em meio a um aglomerado de perguntas sem respostas. A sociedade moderna sofre a cada instante em velocidade incompreensível, mudanças e reações que só fazem aprofundar sua prostração e perplexidade. Esse verdadeiro terremoto que se abate sobre todos não sabemos bem como nem quando começou, pois a linha fronteiriça que separa as mudanças dos grandes períodos da humanidade não é tão nítida como desejamos. A cultura ocidental, paradigmas coletivos, regras sociais e morais, estruturas políticas, teorias econômicas centenárias, vocação científica, artes, toda estrutura da história humana estão sofrendo profundo abalo. [1] Estes segmentos: ético, social, político e econômico sempre guardaram uma salutar independência, sem, entretanto, comprometer sua harmonia, pois o seu sentido estava muito mais na constante interação, o que oportunava a manutenção desse status social sempre bem equilibrado, pois nesse momento que chamamos modernidade, essa dimensão unicista está absolutamente comprometida.  [2]

Esse é o cenário moderno em que todos vivemos, cristãos ou não; mulheres e homens; negros e brancos. Um cenário em constantes mutações, conflitos e reformulações conceituais. A impressão que se tem é que o homem está em constante ebulição, buscando harmonia de si mesmo, com o seu próximo e seu habitat. Parece que tudo é perecível e tudo é nascente; tudo é findo e emergente. O fundamental é que se consolide uma sociedade em que o homem seja favorecido, sem que, para isso, tenha que destruir a si, a todos e a tudo em sua volta. Logo, qualquer luta por superação de credo, supremacia de cor, ou eleição de gênero parecerá, não será bem vinda e deve despertar a repulsa e a mais aguda reação organizada contra esses agentes que dizem não à vida e revelam, com isso, a mais vil ameaça à construção da tão sonhada sociedade habitante na alma e coração de cada cidadão e cidadã de bem.

 

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