Pedidos de fé marcam lançamento da “Copa da Paz”

Daqui a alguns dias, o Maracanã receberá um dos maiores eventos esportivos do mundo, a Copa 2014. E, para promover o tema social da competição – “Por um mundo sem armas, drogas, violência e racismo”- , representantes de nove religiões se reuniram no estádio, nessa segunda-feira (19), para a cerimônia inter-religiosa de lançamento da “Copa da Paz”, campanha da Pastoral do Esporte, da Arquidiocese do Rio de Janeiro.
Estiveram presentes no ato o interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), babalawo Ivanir dos Santos; a sacerdotisa de Umbanda e presidente da Congregação Espírita Umbandista do Brasil (Ceub), Maria de Fátima da Rocha Damas; a presidente do Conselho de Igrejas Cristãs do Estado do Rio de Janeiro (Conic), pastora Lus Marina Campos Costa e o bispo auxiliar do Rio de Janeiro, Dom Roque Costa Souza.

Além deles, também participaram o monge budista Gyoushu Tadokoro; o membro da Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio de Janeiro, Sami Ahmed Isbelle; o pastor da Igreja Luterana, Matthias Tolsdorf; o bispo da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Dom Filadelfo Oliveira; e o presidente da Federação Israelita do Estado Rio de Janeiro, Jayme Salomão.
A “Copa da Paz” faz parte de um projeto chamado 100 dias de paz, da Arquidiocese do Rio de Janeiro, cujo coordenador é padre Leandro Lenin, mediador do evento. Ao iniciar a celebração, ele disse que todos têm de ser agentes de transformação na Copa, uma vez que o País vai receber tantas pessoas. “Não estamos de modo nenhum de braços cruzados, pois quem é amigo do bem, quem gosta de fazer a paz jamais espera. Não tem dia nem hora”.

Líderes religiosos expuseram experiências e opiniões

Fátima Damas contou sofrer muita intolerância religiosa durante seus 45 anos na Umbanda. “Lutamos como as outras religiões, e sofremos esse tipo de preconceito. E estamos aqui hoje, irmanados, para que possamos levar para todos palavras de afeto, esperanças e dias melhores”.

Fátima também pediu pelos turistas que estão vindo para o Mundial. “Que os irmãos que chegarão aqui sejam felizes. Quando temos amor no coração e respeito pelo nosso irmão, temos a paz presente”.
O monge Gyoushu Tadokoro explicou que os budistas têm como lema promover a paz e que estão de mãos unidas com as outras entidades religiosas para promover esse espírito. “Está para se iniciar uma Copa do Mundo, na qual várias raças, culturas e religiões se reunirão, e estamos aqui para demonstrar nossa união como líderes religiosos”, comentou.

Dom Roque frisou o objetivo da união das crenças na competição. “Em eventos como esse, queremos promover a reunião dos esforços pela paz, que já conhecem. Então, estar associado a um evento esportivo e a tantos outros grandes eventos é um compromisso que nós temos de que celebrar momentos como esse só se dá em uma cultura de paz”. Dom Roque, que representou o arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta, ainda explicou que as religiões congregadas mostram à sociedade que é possível construir paz não dependendo exatamente de um grande evento, mas que nesse caso a Copa é o cume mais alto de esforços, e é um trampolim para que isso se fortaleça ainda mais.
“Nós, muçulmanos, já estamos acostumados a ter um bom relacionamento com todos os segmentos religiosos”, afirmou Sami Ahmed.
Ele destaca que, na Copa, será o momento em que o Brasil receberá inúmeros turistas com diferentes crenças e costumes, e que é importante que as lideranças religiosas mostrem que deva existir o respeito mútuo entre as crenças. “E, quando estamos aqui, nessa oportunidade, transmitindo uma palavra de paz justamente para que o povo brasileiro possa estar recebendo essas pessoas de forma hospitaleira, respeitosa”, ressaltou.

“O que leva ao racismo e ao ódio é a ignorância”

Na sexta-feira, 17 de maio, chegou à imprensa a informação de que um juiz federal do Rio de Janeiro negou, em primeira instância, o pedido do Ministério Público Federal (MPF) para retirada de vídeos do Youtube, com conteúdo voltado para proselitismo e intolerância religiosa, solicitado no mês de fevereiro de 2014 pela Associação Nacional de Mídia Afro (ANMA). O magistrado argumentou que a Umbanda e o Candomblé, citados nos vídeos, não poderiam ser caracterizadas como religiões – por não terem um texto base, assim como o Torá e a Bíblia; por não terem estrutura hierárquica e por não terem um Deus a ser venerado. Durante o ato inter-religioso, então, os líderes religiosos comentaram o ocorrido.
A presidente do CONIC, pastora Lus Marina, defendeu não só uma mudança de pensamentos na sociedade em geral, mas também o apoio às religiões afro-brasileiras. “Existem diferentes formas de estrutura e expressão religiosas, diferentes formas de compreensão do que seja o relacionamento com Deus, com a divindade”.
Segundo ela, há a impressão de que, no processo de globalização, a raiva foi globalizada. “É preciso contrapô-la com ações afirmativas, não ficar repetindo-a nas nossas conversas e redes sociais. Não podemos aceitar o ódio ou a sua expressão de maneira nenhuma. Nos colocamos solidários com o MPF quando diz não aos vídeos que incitam o ódio contra as religiões afro-brasileiras, e permanecemos ao lado quando ele recorre da decisão descabida do juiz federal que baseia o seu julgamento em um argumento arcaico e obsoleto, desconsiderando a complexidade do universo religioso brasileiro”, completou.

Ela finalizou seu discurso ao dizer que todos querem uma Copa de paz, assim como querem uma cidade e sociedade de paz.
Ivanir do Santos agradeceu à Igreja Católica, ao CONIC e aos líderes religiosos que ali estavam por não pensarem como o juiz. “Temos de reconhecer a liderança do cardeal Dom Orani, que mantém esse diálogo inter-religioso e o respeito com as religiões de matriz africana. O que leva ao racismo e ao ódio é a ignorância. Somos de uma cultura na qual a palavra é sagrada, não o que está escrito. Cristo pregou a palavra e não deixou nada escrito”.

O interlocutor da CCIR comentou que os adeptos da cultura religiosa africana acreditam que a palavra tem axé. “Sou sacerdote de uma religião que a todo momento, quando pode, é desrespeitada. Mas não nos faz pregar o ódio, e sim nos faz compreender esse ato de amor”.

Nesta quarta-feira (21), acontece o “Ato em Solidariedade às Religiões de Matriz Africana”, na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Centro do Rio, com realização da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa e Associação Nacional de Mídia Afro (ANMA), para cobrar providências em relação à declaração do juiz.
Ao final da celebração, cerca de 25 crianças soltaram balões brancos, simbolizando a paz, diretamente do campo do Maracanã. Logo após, os representantes religiosos fizeram uma incursão às dependências do estádio.

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