RELIGIÃO NA TV – Os neofundamentalistas

 

por Vera Silva

Estava preocupada com a onda religiosa que, à semelhança dos bumbuns e da violência, assalta a mídia brasileira, quando li o artigo do Cristovam Buarque, “Planeta Áustria”, no Correio Braziliense de 16 de fevereiro. Nele, Cristovam mostra que a globalização nada mais é do que um nazismo econômico ou uma democracia exclusiva para os ricos.

Então, no último número do Observatório da Imprensa, o Caderno do Leitor deu um grito de alerta sobre o fundamentalismo religioso [ver remissão abaixo]. Imediatamente lembrei-me de um versículo bíblico registrado no livro dos Salmos, capítulo 144, versículo 15, que diz: “Bem-aventurado é o povo cujo Deus é o Senhor.”

Foi inevitável a ligação entre as duas coisas: o fundamentalismo-religioso e o nazismo econômico.

A fé ou a vida?

Há muitos anos, na história da humanidade, muita gente foi torturada e morta para que declarasse que o Senhor era o seu Deus. Há bem menos tempo, no reino dos aiatolás, muitos foram torturados e mortos para que declarassem que Alá era o seu Deus. Há bem menos tempo ainda, no reino dos talibãs, mais gente foi torturada e morta para que declarasse que Alá era o seu Deus.

Contudo, a tortura e a morte não estão nem estiveram ligadas ao Senhor e a Alá, mas sim a qual é o Deus do torturador: às vezes é a superioridade do macho sobre a fêmea; outras, a quantidade de terras que possui; muitas vezes, o desejo de exercer poder sobre o outro; mas, com certeza, na maioria das vezes é o capital ou a grana ou o dinheiro ou o ouro ou o poder do consumo.

Sendo assim, o aparecimento do nazismo econômico no mundo deve-se ao estabelecimento de um novo Deus: a acumulação de capital. Este é o Deus do sistema econômico mundial e, portanto, o senhor de todos nós que vivemos no planeta Terra.

Em seu nome muitos são torturados com baixos salários ou com a falta deles, e muitos são mortos pela fome, pelas doenças e pela guerra. É preciso, nos dizem, garantir a sobrevivência do sistema, por isto o salário mínimo precisa ser aumentado gradativamente e o pleno emprego é sonho dos utópicos.

Para melhorar nossa compreensão dos fatos, é preciso dizer também que os chamados neoliberais são, na verdade, devotos do Deus acumulação de capital e que, em nome desta fé, a inquisição está de volta. Desta vez contra os que não são ricos: os neo-ateus.

E a mídia?

Você deve estar curioso: qual a relação disto com o avanço dos religiosos sobre o nosso direito de ver TV? Como dizem os muito mais jovens do que eu, tem tudo a ver.

No passado, aqueles que queriam que o Senhor fosse o Deus de suas nações se aliaram aos donos do capital, deram-lhes a direção da igreja (até hoje, a rainha da Inglaterra é a chefe da igreja oficial) e passaram a ditar leis religiosas com o apoio dos monarcas, a quem os religiosos garantiram o reino dos céus. Os poderosos monarcas poderiam se descartar de todos aqueles que ameaçavam seu poder sem correr
nenhum risco de descer do trono. De lá para cá poucas mudanças houve, mas…

Um belo dia, os religiosos descobriram que poderiam ser eles próprios os monarcas, melhor ainda, os donos da grana. Somente precisariam de um grande alto-falante, com uma bela tela colorida, acompanhados de muita música gospel. E, maravilha das maravilhas, surgiram os evangélicos.

Eles trabalham duro para conseguir que os neo-ateus se convertam ao deus-capital, ao deus do ter, e abandonem a consciência, o pensamento, a individualidade, o ser-pessoa. Não medem esforços. Criaram até escolinha ao vivo (são aqueles programinhas chamados Gente inocente, Pequenos brilhantes, Xuxa Park etc.), para as crianças aprenderem que o capital é Deus e a mídia, o seu profeta.

É claro que com a cumplicidade dos donos de redes de TV e rádio, que preferem terceirizar a produção para aumentar os lucros. Os jornais, para não perderem dinheiro, fartam-se de anunciar os megashows, garantindo assim boa venda entre os seguidores dos tais pastores-e-padres-vendedores-de-ilusões.

E o nazismo, onde entra?

O nazismo nada mais é, por este ponto de vista, do que uma ideologia que tira o poder de escolha da população, para poder dirigi-la e atingir os propósitos dos poderosos: acumular bastante poder e dinheiro. Para que, eu não sei, mas, como não aprendi a gostar de mandar em ninguém nem a juntar dinheiro como quem junta ar para
respirar, sou suspeita para responder a uma pergunta dessas.

Por certo, os jovens, que estão crescendo na TV e aprendendo que a gente reza para ter dinheiro, sucesso e aparecer na TV, e que ser rico é sinônimo de ser feliz, saberão responder a questões deste tipo. Eu os vejo sempre na TV: muito bonitos, falando várias línguas, assim como aquele Gustavo, ex-Banco Central, ou cheios de ginga e fala largada, mostrando seus lindos bumbuns e ganhando muito dinheiro para
beber e atropelar os neopobres-de-espírito que ainda não aprenderam que o dinheiro é tudo e o bispo é o seu profeta.

Os donos dos jornais, das TVs e das rádios são os que puxam as cordas para apertar os pescoços e acendem as fogueiras para queimar as bruxas. Só que são civilizados, fazem isto com muito marketing e o povo nem percebe a vida de gado que vai levando.

Psicóloga

FONTE: Observatório da Imprensa

 

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